Temple Grandin: “Diferente, mas não inferior”


Mary Temple Grandin é uma das mais inspiradoras mulheres com autismo da atualidade, possuindo não só uma inteligência incomum mas também um apreço muito belo por um melhor tratamento para animais em abatedouros. De origem americana e nascida em Boston, possui bacharel em Psicologia pelo Franklin Pierce College, um mestrado em Zootecnia na Universidade Estadual do Arizona e também um Ph.D em Zootecnia pela Universidade de Illinois. Atualmente, ministra cursos na Universidade Estadual do Colorado sobre o comportamento de rebanhos e projetos de instalação, além de prestar consultoria para a indústria pecuária. Em 2010 ganhou um belíssimo filme, dirigido por Mick Jackson, que conta a história de sua vida, as habilidades que desenvolveu, seu sofrimento e como conseguiu contornar suas maiores dificuldades.

O autismo é um transtorno de desenvolvimento que geralmente aparece aos 3 anos de idade, comprometendo a comunicação e dificultando o relacionamento social. Albert Einstein, Michelangelo, Isaac Newton e até Lionel Messi são autistas. Temple, especificamente desenvolvera a síndrome de Asperger, uma condição psicológica do espectro autista que difere dos outros tipos pelo desenvolvimento da linguagem e cognição.

Algumas pessoas desenvolvem uma hipo ou hipersensibilidade, em um ou em múltiplos sentidos. Muitos sons e ruídos os quais estamos acostumados podem aflingir intensamente os que possuem o transtorno, porém, em contrapartida, alguns autistas também podem ser capazes de escutar frequências que não são perceptíveis a nós. Em seu filme, são mostradas três hipersensibilidades que Temple possui. A primeira, em relação ao tato, no qual ela evita abraços e qualquer tipo de contato físico com outras pessoas por se sentir desconfortável. A segunda, em relação a alguns ruídos, e a terceira, em relação à comida, na qual ela só podia comer duas coisas: iorgute e gelatina.

Houve uma época em que Temple foi levada a passar um tempo em uma fazenda, e ao observar a forma como as vacas eram vacinadas – levadas a um corredor e levemente pressionadas por barras de ferro que as acalmava -, decidiu criar a sua própria “máquina do abraço”. Principalmente por ter passado por um grande momento de desespero e ter experimentado a câmara de vacinação por si mesma, comprovando a sensação. Foi uma forma que encontrou para sentir um sentimento de paz provocado por um abraço, e se acalmar em vários momentos de desespero mostrados no filme. Posteriormente, estudos científicos provaram que sua invenção era verdadeiramente eficaz. E importante citar um desses estudos científicos foram feitos por ela mesma, utilizando sua invenção nos universitários e coletando dados. Algumas crianças suprem a ausência do contato físico humano pulando, rolando e até mesmo girando. Antes de ter invenção da máquina do abraço, o que mais acalmava Temple era ficar girando em um balanço.

123

Uma criança com autismo pode lembrar facilmente de todos os detalhes dos itinerários dos trens sem necessariamente querer usá-los para fins de uma viagem – Uta Frith

A forma de pensar também se difere, e a psicóloga do desenvolvimento, Uta Frith, defende que pessoas com autismo têm uma habilidade limitada em perceber o todo, possuindo foco mais para pequenos blocos e detalhes. Muitos experimentos apoiaram essa teoria, e no filme, fora mostrado que Temple percebia detalhes pequenos e sutis que passariam despercebidos por nós. Por exemplo, é o caso de ter sido a única que percebeu como as vacas e bois se acalmavam enquanto estavam em sua câmara de vacinação. Em outro momento, na escola, fora a única capaz de criar um protótipo físico para explicar um truque de ilusão de ótica proposto por seu professor de ciência. Também era capaz de gravar uma “fotografia” de um texto em sua cabeça e recitá-lo posteriormente para toda a classe sem necessariamente tê-lo decorado.

Eu posso me lembrar da frustração de não conseguir conversar. Eu sabia o que eu queria dizer, mas eu não conseguia falar, então eu simplesmente gritava. – Mary Temple Grandin

Temple pensa em imagens e ao ouvir a palavra “sapato”, passa em sua cabeça inúmeras imagens de sapatos que já viu na vida. Diferente da forma objetiva que simplesmente pensamos “sapato”. Muitos autistas não chegam a desenvolver a linguagem, alguns podem não falar pelo resto da vida e outros se comunicam com pouca frequência verbalmente.

060311_diagram

Observando como os bois e as vacas se comportavam nos abatedouros, Temple percebeu várias irregularidades no local que causavam pânico a esses animais. Descobriu que bois gostam de andar em círculos. Que se assustam com determinadas coisas penduradas, como roupas ou correntes. e até que determinadas sombras e movimentos abruptos lhe causam medo. Interessada nessa área, resolveu desenvolver seu mestrado nesse mesmo ramo, e após muito esforço, conseguiu desenvolver um modelo ideal de abatedouro mais digno para esses animais, e foi requisitada posteriormente como consultora para reformular várias instalações de abatedouro.

36640_max

Contudo, apesar de suas grandes habilidades, de conseguir se focar em detalhes e estar atenta às coisas ao seu redor, e guardar imagens com facilidade, tinha grandes dificuldades. Uma delas era não conseguir passar por locais que tivessem portas automáticas, como de shoppings. Ao observar a porta, em sua cabeça, vinha-lhe imagens do movimento de uma faca cortando alimentos e até mesmo de guilhotinas. Outra, era o sentimento de pânico diante da cantina, onde só havia alimentos que ela não conseguia comer. Possuia muitas outras dificuldades e até mais “básicas”.

Todavia, sua inteligência também não é algo comum. A mídia e até grande parte das descrições científicas sobre autismo no século XX, contribuíram para a formação de um estereótipo de que todos são extremamente inteligentes e vivem uma vida completamente normal e sem problemas. Porém, estudos feitos na década de 1970, apontaram que os escores em testes de inteligência feitos em autistas eram relativamente baixos, e que em apenas 10% deles se desenvolveram grupos de habilidades que Temple desenvolvera, desmitificando a constante associação entre autismo e inteligência superior.

Mary Temple Grandin, e a sua história de vida, nos mostra, como em suas próprias palavras, que as pessoas podem ser “diferentes, mas não inferiores”. Quando estamos falando de seres humanos, é importante darmos um passo fora de nossa caixa e identificar valores importantes nas diferenças. Geralmente, ao percebermos diferenças nos outros, nos focamos simplesmente nas suas fraquezas e “defeitos” e não enxergamos suas reais potencialidades, o que pode ser fortemente prejudicial, criando preconceitos e em casos mais extremos, gerando etnocentrismo. As diferenças, são apenas diferenças.

Caso saiba um pouco de Inglês, recomendo assistir sua palestra no TED.

Referências:

http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-65382012000200002
https://pt.wikipedia.org/wiki/Temple_Grandin
http://www.templegrandin.com/
http://www.logicocursosaliados.com.br/noticia_interna.php?id=310
http://g1.globo.com/globo-reporter/noticia/2010/11/mulher-consegue-vencer-autismo-com-maquina-do-abraco-nos-eua.html
http://autismoerealidade.org/informe-se/sobre-o-autismo/o-que-e-autismo/
http://www.sidneyrezende.com/noticia/216041+de+einstein+a+messi+sindrome+de+asperger+fabrica+genios
https://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%ADndrome_de_Asperger

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s