Ensinar para aprender

É possível aprender para se ensinar. Contudo, também é possível ensinar para se aprender. Habitualmente, nós aprendemos coisas novas, estudamos e deixamos as informações em nossa memória caso seja preciso utilizá-las novamente. Porém, muitas vezes esquecemos que podemos compartilhar aquilo que aprendemos, que somos seres sociais e que agimos em cooperação. Podemos considerar, sem dúvidas, que ensinar também é uma das melhores formas de se aprender.

Se você não consegue explicar algo de forma simples, você não entendeu suficientemente bem – Albert Einstein

Em 2012, o professor e pesquisador Moseli Mafa, da Universidade de Educação Lesotho, na África, realizou um estudo para averiguar como seria o desempenho da aprendizagem dos seus estudantes se tivessem que ensinar uns aos outros os conteúdos propostos e se tivessem que estudar por conta própria para responder determinadas perguntas de uma avaliação. Para tal, analisou e montou três grupos. Dois deles, com alunos propensos a serem professores de biologia, em seus últimos semestres, e o outro, com futuros professores de ciências em seu primeiro semestre na universidade. Tomando notas, gravando áudios, recolhendo depoimentos e fazendo eventuais entrevistas com os grupos, Moseli Mafa reuniu informações interessantes. Como pontos positivos, os estudantes relataram que aprenderam e entenderam mais profundamente aquilo que tiveram que ensinar; que as habilidades de organizar ideias e de se comunicar foram melhoradas; que o método era empolgante e debates saudáveis foram gerados. Como pontos negativos, estudantes relataram que o método requisitava muito tempo e recursos, como livros e internet para pesquisa, e que também era necessário o acompanhamento de um professor para não se aprofundar além do necessário nos estudos. Balanceando os pontos positivos e negativos, é possível compreender que vale a pena utilizar o método para uma aprendizagem mais profunda e produtiva, mas por que ele é eficaz? group-of-students-working Quando temos que estudar algo, com o pensamento prévio de que teremos que passar aquele conhecimento adiante, tendemos a prestar mais atenção naquilo em que estamos aprendendo, e se de fato, estamos mesmo aprendendo. Procuramos ver coerência nas informações e as organizamos em uma boa estrutura em nossa cabeça. Além disso, esse pensamento prévio ou “mindset“, influencia diretamente a profundidade do nível de aprendizagem que pode ser atingida nos estudos. John Nestojko, pesquisador em Psicologia, diz que se tratando de condições de estudos, quando comparados com os estudantes que estudam com expectativa de um teste, os estudantes que estudam com expectativa de ensinar conseguem se lembrar com mais facilidade e com mais precisão o material estudado e ainda conseguem organizar as informações mais efetivamente. Porém, quais são as formas que podemos utilizar o método de aprender-pelo-ensino?

Os homens, quando ensinam, aprendem – Seneca

Converse com um patinho de borracha! Estranho em um primeiro momento, mas alguns programadores utilizam patos de borracha para facilitar a identificação de erros no código de programação. Quando se deparam com uma falha no código que estão desenvolvendo, colocam o pato do lado do computador, voltam ao início e explicam o código linha por linha para o pato de borracha ou qualquer outro objeto inanimado. Os programadores possuem o aparato intelectual pra detectar o problema no código; entretanto, na pressa e com outras distrações tomando atenção, podem ler a mesma linha setenta vezes e não notar que erraram a sintaxe. Ao desconstruir o código explicando-o para um patinho de borracha, são ativados processos cognitivos que permitem então localizar a falha. Esse método, criado por Israel Nobre e chamado “Rubber Ducky Debugging”, pode ser utilizado também em outras situações. É possível explicar o que aconteceu na Segunda Guerra Mundial para ele, assim como é possível lhe dizer o que são ácidos graxos. Apesar de parecer engraçado, funciona muito bem. The 16.5-metre-tall inflatable Rubber Duck art installation is seen at the Victoria Harbour in Hong Kong on May 2, 2013. The inflatable duck by Dutch artist Florentijn Hofman will be on display in the former British colony until June 9.  AFP PHOTO / Philippe Lopez        (Photo credit should read PHILIPPE LOPEZ/AFP/Getty Images) Há outras alternativas também. Pode-se criar um blog e com um certo senso de responsabilidade, escrever com uma determinada frequência sobre as coisas que se está estudando. Até mesmo a criação deste blog em si, surgiu dessa pequena mas valiosa ideia, de que é possível aprender mais, apenas ensinando, e o retorno tem sido muito positivo. É possível criar um canal de vídeos no Youtube, e com isso, receber um bom retorno, uma avaliação sobre seus vídeos. Há também a possibilidade de tentar explicar as coisas para pessoas próximas, e até mesmo para crianças, que em geral, já são curiosas por natureza. A criação de um podcast ou de uma espécie de “diário de bordo” também e uma boa ideia. A Universidade de Stanford criou um programa de computador no qual é possível ensiná-lo diversas coisas, como forma de substituir uma pessoa que poderia ser ensinada. Depois de ensiná-lo, há a possiblidade de lhe fazer perguntas ou até mesmo pedí-lo para solucionar problemas. Já a Universidade da Pensilvânia criou um projeto de “tutoria em cascata”, onde estudantes de graduação ensinam conceitos de ciência da computação para estudantes do ensino médio, que em troca, ensinam os mesmos conceitos para estudantes do ensino fundamental. São práticas e projetos inovadores que podem e devem ser incentivados para uma aprendizagem mais proveitosa e possibilitar melhorias no sistema educacional. O ponto negativo que mais pesa na hora de pensar em aprender ensinando é o fator tempo. Usando como exemplo este blog, posso dizer que a carga de tempo gasto em pesquisas, no entendimento pleno de artigos científicos e outros textos, na elaboração do texto e sua constante correção, é grande, e de certa forma, não é algo que poderia fazer todo dia, devido a outros afazares e ao foco na faculdade. Contudo, a aprendizagem é profunda e muito duradoura. Quando requisitado para fazer uma explicação do que escrevi em textos anteriores para outras pessoas, consigo prover uma explicação clara e minhas ideias sobre os assuntos já estão bem organizadas. Em linhas gerais, é um ótimo custo-benefício, vale a pena e ainda por cima, é possível compartilhar conhecimento e ajudar outras pessoas. Afinal, por que não ensinar? Apesar de ser em inglês, aqui temos um mini-documentário sobre o “futuro do aprendizado”, que conta sobre algumas inovações no campo da aprendizagem juntamente com a evolução da tecnologia. https://www.youtube.com/watch?v=qC_T9ePzANg Referências: http://ideas.time.com/2011/11/30/the-protege-effect/ http://hbdia.com/tutorialzinho/como-resolver-varios-problemas-na-sua-vida-com-um-patinho-de-borracha/ http://www.learnlab.org/opportunities/workshop/posters/Mafa_Assessment.pdf http://www.futurity.org/learning-students-teaching-741342/ http://aaalab.stanford.edu/papers/Teachable_Agent_Lite.pdf http://aaalab.stanford.edu/papers/Productive_Agency_in_Learning_by_Teaching.pdf http://www.spring.org.uk/2014/08/how-to-learn-anything-better-by-tweaking-your-mindset.php http://www.edutopia.org/pdfs/edutopia-teaching-for-meaningful-learning.pdf

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6 comentários sobre “Ensinar para aprender

      1. Fiz desenho industrial lá. Já terminei. Mas acabei voltando para fazer segunda graduação em artes visuais.
        A propósito, eu acho que conheço teu irmão. Olhei sua foto e me lembrei de alguém, aí olhei o perfil do facebook e vi o Emerson lá. Estudei japonês com ele há alguns anos, na UnB Idiomas.

        Curtido por 1 pessoa

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