Aprendendo a estudar nº02: Relação aluno/estudante e tipos de memória

A definição de estudar não é tão clara e fácil de identificar quanto parece. Contudo, já podemos considerar e discutir um pouco mais sobre o que o ato de estudar não representa, e como podemos nos beneficiar disso. Como um grande complemento e para melhor entendimento do texto a seguir, é altamente recomendável tirar um tempo para assistir a palestra abaixo, do recém-falecido professor Pierluigi Piazzi, que passou mais de 10 anos de sua vida palestrando em escolas com o intuito de fazer com que erros comuns do sistema educacional brasileiro fossem evitados.

Você tem que ir para a escola para estudar – seus pais, professores, o universo e tudo mais, novamente

Estudar não é somente assistir aula. Apesar de termos passado grande parte de nossas vidas sentados em aula, mantendo o foco no que o professor dizia, estávamos, por todos esses anos, somente apreendendo uma pequena fatia do que vem a ser o complexo ato de aprender. Em sala de aula, com o auxílio dos professores, nós entendemos e somos alunos. Em casa, com nossos próprios esforços. estudamos e somos estudantes. Pelo menos, essa deveria ser a ordem, que por algum motivo, principalmente no Brasil, se mantém um pouco distorcida. Para entender melhor porque na sala de aula somos alunos, e não estudantes, vamos visualizar melhor como nosso cérebro e nossa memória funciona.

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Nossa memória mais básica é denominada de memória sensorial. Ela é responsável pelo reconhecimento de todos os estímulos que perpassam nossos cinco sentidos: olfato, paladar, audição, tato e visão. Além disso, ela possui uma capacidade de retenção de informações muito pequena, e após milésimos de segundo, tudo o que passou por ela – sem dar relevância a essas informações – já se perdeu. É a memória responsável pela nossa percepção do mundo e de coisas ao nosso redor. Percepção essa, que nem sempre precisa ser consciente, como quando olhamos ou tocamos em algo de forma indiferente. Estar em sala de aula, apenas observando passivamente o professor, sem prestar atenção em suas palavras, e momentaneamente desferindo sua atenção para outros lugares, faz com que as informações transferidas por ele cheguem apenas em sua memória mais básica, e sendo despachadas logo adiante para o esquecimento.

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Quando damos uma atenção mais consciente às informações que estamos recebendo, as estamos transferindo para a memória de curto prazo, também chamada de memória de trabalho. Podemos definí-la como o “Post-it” do cérebro, na qual os dados retidos nessa memória servem mais para nos lembrar. Por exemplo, ao anotarmos um número de telefone em sequência, estamos dando uma atenção maior para o mesmo, para nos lembrarmos dele muitas vezes a tempo de fazer uma ligação logo em seguida, e isso requer um pouco mais de consciência do que se está fazendo. Outra situação, é quando estamos realizando um cálculo mentalmente e precisamos “segurar” em nossa mente os números já somados, divididos ou subtraídos para finalizar a conta. Nesses casos, a informação passa da memória sensorial para a memória de curto prazo.

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Essa memória, por se localizar no sistema límbico do cérebro, uma pequena porção comparada ao todo, também possui uma capacidade de armazenamento pequena. E quando a excedemos, ou seja, quando pensamos demais ou quando lemos demasiadamente, ela se esgota. É neste momento em que nossa atenção é desviada automaticamente do que estamos fazendo para uma coisa qualquer. É aquele momento em que estamos lendo um livro por horas e de repente percebemos que estamos olhando para o “nada” ou pensando em coisas bem distintas a alguns minutos. Esse é um mecanismo de alívio. depois da sobrecarga de informações. Por isto, o mais recomendável é fazer leituras, ou qualquer outra atividade que exija um pouco da sua atenção, em ciclos.

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Na década de 1980, o italiano Francesco Cirillo, desenvolveu uma técnica de gerenciamento de tempo chamada de “técnica do pomodoro”. Quando era universitário, carregava consigo um temporizador de cozinha em formato de tomate (pomodoro, do italiano = tomate), e determinou alguns princípios para sua utilização:

  1. Determine a tarefa a ser feita
  2. Ajuste o temporizador para “n” minutos (tradicionalmente 25)
  3. Trabalhe na tarefa até que o temporizador toque; marque um x
  4. Tire um curto descanso (3/5/15 minutos)
  5. Após quatro pomodoros, tire um descanso mais longo (20-30 minutos)

Essa é uma ótima forma de começar os estudos sem sobrecarregar a memória de curto prazo, delimitando tempos relativamente pequenos de estudo intercalados com proveitosos períodos de descanso. Porém, deve se levar em consideração que deve ser realizar a tarefa distante de computadores ou coisas que geralmente nos tiram a atenção facilmente, pois, caso contrário, pode ocorrer dos pequenos momentos de descanso virarem horas, e fazer com que nós acabemos não concluindo a tarefa. Além disso, é importante enfatizar de que no momento em que estamos realizando aquela tarefa, devemos nos focar exclusivamente nela, afinal, só são 20 minutinhos e logo teremos um período em que poderemos levantar, tomar uma água, responder alguma mensagem de forma rápida, e posteriormente, retornar à ativa. Atualmente há alguns aplicativos para celulares com Android como o Clockwork Tomato, para Iphones como o Flat Tomato, e também há websites para isso como o Pomodoro-Timer, para poder utilizar a técnica. Contudo, nos atentando aos perigos da tecnologia, um pedaço de papel e um relógio na mão dão conta do recado.

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Quando estamos tendo uma aula, recebendo o conhecimento de forma indiferente, estamos fazendo a transferência, registrando as informações da memória sensorial para a memória de curto prazo. No entanto, a memória de curto prazo também não possui uma capacidade de retenção de informações muito grande, e os dados armazenados nela, sem uma grande carga emocional, duram entre poucos segundos até no máximo uma noite de sono, dependendo de como os dados foram armazenados. Com isso, podemos ver que só assistir aulas, não faz com que você de fato esteja estudando e aprendendo algo de forma prática. É insuficiente para uma aprendizagem mais “verdadeira”. E apesar desta rotina já muito natural, de ver, ouvir e entender o que o professor estava explicando, não estávamos, efetivamente estudando de forma completa. Precisávamos dar um passo adiante.

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Na imagem acima, sobre o “Ciclo do Sono”, temos esses períodos marcados em vermelho chamados de R.E.M. De forma simples, este são os momentos em que estamos sonhando ou que estamos mais propensos a sonhar. Acontece que, esse é justamente o período em que as informações da memória de curto prazo passam para a memória em que efetivamente aprendemos de forma duradoura, a memória de longo prazo. Então podemos observar que o sono também desempenha um papel muito importante na aprendizagem, já que o mesmo é responsável por gravar o que recebemos de forma mais efetiva, registrando o que é mais importante e também descartando completamente o conteúdo da memória de curto prazo. Dessa forma, é necessário entender que se tivemos uma aula hoje pela manhã, devemos estudá-la até o fim do dia, antes que o nosso sono as apague. 

Aula dada, aula estudada, HOJE – Pierluigi Piazzi

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Para uma breve reflexão, vamos parar um pouco e visualizar algo: nós recebemos milhares de informações todos os dias, desde informações mais perceptivas que chegam à nossa memória sensorial, até as informações mais concretas e conscientes que chegam na nossa memória de curto prazo, e com tantos estímulos externos e internos, como pode o nosso cérebro, durante o sono, distinguir o que é mais relevante? De forma simples, essa distinção é feita principalmente pela repetição e pela carga emocional que as acompanham – não só repetição e emoção são importantes para estudar e lembrar-se do que se aprende como também outros fatores importantes que discutiremos em textos adiante – .

Nossas lembranças mais fortes são as que estão ligadas à repetição e emoção. Pelo lado emocional, nos lembramos facilmente de coisas que aconteceram que as carregavam fortemente, como uma tragédia, uma despedida, uma conquista, uma aprovação no vestibular. E pelo lado da repetição, bem, desde andar e utilizar a bicicleta até escrever e utilizar o computador. Utilizando o exemplo dado pelo professor Pierluigi Piazzi, em seu livro “Aprendendo Inteligência”, vamos imaginar que tivemos aula de tarde, e que entendemos o conteúdo de forma indiferente e que o mesmo também foi transmitido por parte do professor de forma indiferente. Porém, no meio da aula, o professor conta uma piada super engraçada sobre um papagaio. Semanas depois, não conseguimos nos lembrar praticamente de nada da aula, mas conseguimos nos lembrar de boa parte da piada e recontá-la para alguém. Neste caso, para o nosso cérebro, a piada do papagaio teve muito mais relevância em ser armazenada na memória de longo prazo do que a aula em si. Além disso, neste caso a culpa é dupla. Tanto do professor que não soube transmitir o conteúdo da aula de forma que se atrelasse às emoções do aluno (fazendo comparações concretas e mais próximas à realidade, dando mais sentido ao mesmo, evidenciando a importância do conteúdo e até mesmo sendo expressivo e utilizando-se de outros recursos para dinamizar a aula) e tanto do aluno, que também não se esforçou muito mentalmente para se identificar emocionalmente com o objeto de estudo. *E relato que durante meu período escolar, no Centro de Ensino Médio de Taguatinga Norte, no Distrito Federal, tive dois grandes professores, Rogério Póvoa (Sociologia) e Cárlinton Alvarenga (Língua Portuguesa), que sabiam com maestria despertar a emoção dos alunos e provocá-los a participar emocionalmente das aulas. Ainda me lembro muito bem de muitas reflexões e aulas inesquecíveis.*

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A memória de longo prazo, localizada em quase toda a extensão do nosso córtex cerebral, uma enorme área, possui uma grande capacidade de armazenamento. Para termos maior noção, se estudássemos 10 horas por dia, durante toda a nossa vida, precisaríamos de mais 400 anos para utilizar toda a sua capacidade de armazenamento. Além disso, informações neste tipo de memória se mantém por mais tempo e demoram mais a ser esquecidas. Com bons estudos e algumas revisões, é possível nos lembrar dos conteúdos por meses e anos.

Para concluir, é importante lembrar que ser aluno, assistindo aulas, e ser estudante, fazendo a parte mais ativa do processo, solitário em suas próprias mãos, são coisas diferentes, mas que se complementam muito bem. Entender bem o conteúdo, e aplicar esse entendimento aos estudos no mesmo dia, pode nos poupar de muitas frustrações posteriores e agilizar consideravelmente o processo de estudar, tornando a experiência mais significativa e prazerosa, sem contar com o fato que você estará aprendendo mais verdadeiramente. No próximo texto falaremos mais um pouco sobre a importância da repetição, e práticas de revisão que podem extremamente lhes ajudar. Inevitável não dizer que é preciso desenvolver uma disciplina, um hábito de estudar que lhe possa prover de todos os benefícios, e para isso, recomendo muitíssimo o vídeo abaixo do Seiiti Arata, fundador da Arata Academy, no qual ele explica muito bem sobre a criação de novos hábitos a partir do livro “The Power of the Habit”, de Charles Duhigg.

Referências:

http://www.human-memory.net/types_long.html
http://www.human-memory.net/types_short.html
http://www.human-memory.net/types_long.html
https://psicologado.com/neuropsicologia/a-interferencia-emocional-na-aprendizagem

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