Antissemitismo na Alemanha Pré-Nazista

O antissemitismo, o ódio generalizado aos judeus, normalmente é atribuído de forma exclusiva à Adolf Hitler e ao partido nazista. O que é justificável, quando nós paramos para pensar nas atrocidades que seu partido promoveu na Alemanha, como o Holocausto, a eugenia. Mas será que o antissemitismo não foi originalmente um produto da própria Alemanha?

Na realidade, o antissemitismo foi moldado aos poucos, se difundindo amplamente por escritores, políticos, jornalistas, camponeses e religiosos alemãos. No século XIX, o antissemitismo que existia na Alemanha, era mais em relação ao caráter não cristão dos judeus, e com isso, eles eram vistos como minoria religiosa e sofriam discriminação por sua religião diáriamente. Muitos judeus se convertiam para o cristianismo e alguns até mesmo trocavam seus nomes por outros, mais “bíblicos”, para evitar a discriminação. Não só minoria religiosa, mas também minoria populacional, já que os judeus na Alemanha significavam menos de 1% da população total no século XIX. Como minoria não cristã em uma sociedade governada por crenças cristãs, judeus eram alvos óbvios e fáceis de ódio popular em tempos de crise. Por exemplo, como a peste negra que assolou a Europa na metade do século XIV. Como na derrota da Alemanha na 1º Guerra Mundial, em que muitos alemães não acreditaram ter perdido a guerra por fins militares, mas sim por uma conspiração, uma secreta punhalada pelas costas, facilmente associadas por alguns aos judeus. Mas com o tempo, esse antissemitismo tradicional aos poucos foi diminuindo, ao passo que os judeus se mostravam cada vez mais abertos, se convertendo cada vez mais e casando dentro da sociedade cristã. Porém, essa foi uma grande porta de entrada para escritores e demagogos moldarem o antissemitismo que conhecemos.

Muitos judeus eram bem-sucedidos economicamente. Muitos, acharam um bom lugar nos negócios e em profissões qualificadas. Junto com a família Rothschild de grandes banqueiros, emergiram outras financeiras importantes de proprietários judeus, inclusive Bismarck, Kaiser da Alemanha na época, confiava sua finanças pessoais a bancos judeus. Aos poucos, mesmo sendo minoria religiosa, os judeus estavam sendo associados a modernidade cultural, financeira e social da Alemanha. Essas associações, fizeram com que alguns escritores e demagogos começassem a atacar os judeus.

Um exemplo deles é o caso de Hermann Ahlwardt, um jornalista que chegou a escrever um livro conspirando sobre possíveis maquinações dos judeus, culpando os por problemas financeiros que ele mesmo estava passando. No fim, recebeu sentença de prisão duas vezes, uma delas por ter forjado documentos que falavam que o governo alemão estava a serviço de um banqueiro judeu. Mas acabou ganhando espaço no parlamento alemão, após conseguir persuadir camponeses de que os seus infortúnios financeiros agrícolas estavam sendo causados pelos judeus.

Mas a virada, de um antissemitismo religioso para um antissemitismo racial, foi feita pelo escritor Wilhelm Marr, o autor da própria palava antissemitismo e criador da Liga dos Antissemitas. Ele escreveu um panfleto, chamado “a vitória do judaísmo sobre o germanismo de um ponto de vista não confessional” e em obra posterior, insistiu que “Não deve haver dúvida sobre o alarde de preconceitos religiosos quando se trata de uma questão de raça e quando a diferença está no sangue”, se apoiando nas ideias do racista francês conde Joseph Arthur de Gobineau. Marr contrastava os judeus com os alemães, insistindo que eram duas raças distintas e que os judeus estavam controlando o país e que formavam o eixo em torno do qual gira a história do mundo. Idéias que foram depois compradas facilmente por vários outros escritores. E assim como Hermann Ahlwardt, seus problemas também eram financeiros, e ainda culpava uma de suas exs-esposa judia pela falta de dinheiro, por causa que tinha que pagar uma pensão substancial para a criação dos filhos dos dois.

Muitos antissemitas alemães se apoiavam em um sistema científico irrefutável, pelo menos, era assim que pensavam. Agir dessa maneira, era uma forma de fazer parecer aos outros de que suas ações eram mais corretas pois estavam justificadas, encobridas intelectual, moral e legalmente, mas usadas basicamente como pretexto para o ódio. E as ideias de dois homens em especial, foram bastante influentes na Alemanha pré-nazista. As teorias racistas do Conde Joseph Arthur de Gobineau e as de Houston Stewart Chamberlain.

O Conde francês Joseph Arthur de Gobineau, publicou um “Ensaio sobre as desigualdades das raças humanas”, e tinha a concepção de que os judeus (semitas), formavam uma raça mista, e que as coisas grandiosas na família do homem pertencia a uma única família, que reina em todos os países civilizados do mundo, a ariana. Uma forte concepção para separar e determinar duas raças.

Já o inglês Houston Stewart Chamberlain, com seu livro “As fundações do século XIX”, retratou de forma mística a história em termos de lutas raciais pela sobrevivência, a raça germânica de um lado, heróica e culta e do outro, a raça judaica, mecanicista e cruel. De acordo com ele, dois grupos raciais que continham em si a pureza original em um mundo repleto de miscigenação. Mas suas ideias foram impactantes pela sua inovação, em termos científicos na época, de ter juntado antissemitismo, racismo e o darwinismo social. Muitos tentavam enquadrar a lei da seleção natural sobre humanos, da raça mais forte e da raça mais fraca, dos capazes e dos incapazes, o que levou posteriormente à políticas de eugenia, para descartar os incapazes e promover uma higiene social.

Apesar dessas tentativas de disseminar o antissemitismo, a maioria esmagadora da população alemã permanecia contrária a essa ideologia no início. O maior partido da Alemanha, o Social-Democrata, era contrário ao antissemitismo e inclusive considerava uma ideia antidemocrática. As pessoas que mais aderiam ao antissemitismo, eram àquelas que estavam mais economicamente fragilizadas, como camponeses, pequenos negociantes, artesãos, e como vimos, alguns escritores. Mas no ramo da política, aos poucos algo chamado de “espírito judeu” crescia. Basicamente, a ideia de que os judeus estavam tendo influência demais em muitos setores da sociedade alemã, e discursos de ódio de partidos antissemitas, contra os judeus eram cada vez mais frequentes nas reuniões parlamentares, até atingir seu ápice com a chegada do Partido Nazista ao poder em 1933.

Com tudo isso, podemos ter uma ideia melhor sobre algumas coisas que estavam ocorrendo na Alemanha antes mesmo de Adolf Hitler chegar ao poder, e entender que atribuir uma culpa exclusiva a ele, é passar por cima de muitas coisas que envolviam não só a Alemanha mas também outros países da Europa. Contudo, também é inegável que o Partido Nazista foi um propulsor massivo de um antissemitismo sem freios, que levou à morte de milhares de judeus a sangue frio.

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