A romantização dos cientistas

É inevitável não pensar em grandes nomes quando falamos em ciência. Galileu, Newton, Einstein, entre muitos outros. Esses, são considerados os expoentes que mudaram para sempre os rumos da atividade científica, colocando-a em uma posição de destaque jamais vista. Contudo, atualmente, há uma certa “mitologia” a respeito dos cientistas, uma espécie de romantização exagerada, que camufla até mesmo muitas de suas características humanas tais como o ego, a ganância, a ambição. São transformados em deuses, imantados por uma constante busca pela verdade Absoluta, um foco sem precedentes na atividade científica, uma predileção pelo pensar no futuro sem cambalear e uma autoridade incontestável. Porém, será que todos esses créditos e essas exaltações são mesmo tão válidas assim?

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Conhecido hoje como fundador da Física moderna, Isaac Newton foi o primeiro cientista a receber uma estátua em sua homenagem. Sua teoria da gravidade revolucionou a ciência de uma forma jamais vista, tanto pela sua fundamentação teórica quanto por sua metodologia mais matematizada. Após sua morte, Newton começou a ser celebrado como um Deus pela Europa e foi cercado pela ideia de que era um gênio solitário – como se todo o seu conhecimento fosse fruto de seu próprio pensamento científico – extremamente racional, o criador da ciência moderna em busca de uma “verdade absoluta”. Contudo, essa foi uma romantização de sua imagem e não condiz com a realidade.

“Se enxerguei mais longe, foi porque me apoiei sobre os ombros de gigantes” – Isaac Newton

Newton passou grande parte de sua vida estudando Alquimia – considerada hoje pseudociência, apesar das contribuições dos alquimistas na elaboração de sofisticados instrumentos de extração e destilação de substâncias químicas – e a Bíblia, procurando Deus em ambas e em como ele poderia se encaixar em suas teorias. Podemos dizer aqui que foge ao Newton verdadeiro o caráter de físico dedicado e extremamente racional, completamente focado em buscar a verdade absoluta. Além disso, como muitos outros cientistas, para elaborar suas teorias científicas ele se baseou em trabalhos de outros como Kepler, Galileu e Descartes.

Tanto cientistas asiáticos quanto árabes, talvez por uma perspectiva eurocêntrica existente, recebem e receberam uma importância menor em comparação a outros cientistas europeus apesar das valiosas contribuições de seus trabalhos. Importante ressaltar que antes de Newton, um cientista persa chamado Al-Haytham – ou Alhazen – já havia feito diversas contribuições em vários ramos da ciência como astronomia, geometria, matemática, e principalmente na ótica. E posteriormente, tanto Descartes como Galileu, Newton e Kepler se basearam em seus escritos para complementarem seus trabalhos.

Alhazen reproduziu até mesmo, antes de Newton, e com suas próprias lentes, os efeitos de refração e dispersão da luz. Mas infelizmente, é Newton quem fica com todo o crédito. Como cientista árabe, não só Alhazen foi desvalorizado e perdeu grande parte do crédito, mas também Avicena, um filósofo e médico que fez diversas contribuições importantes para a Medicina, acabou sendo apagado da história da ciência.

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Muitos cientistas e filósofos tendem a esconder suas fontes de pesquisa e suas referências, muito provavelmente por uma questão de autopromoção e de orgulho. Em 300 a.C, o filósofo Epicuro pensou sobre o átomo e constituiu toda uma teoria sobre ele, omitindo a informação de que partia das ideias de Demócrito, hoje considerado precursor da teoria do átomo. Epicuro tentou se destacar mais do que seus antecessores, e atualmente isso ainda ocorre com uma certa frequência, já que alguns cientistas ainda omitem fontes de pesquisa e mudanças de caminho em suas metodologias, chegando em conclusões desonestas por meios desonestos.

É notável como atualmente ainda impere o mito de que os cientistas “descobrem” as coisas, como se fossem completamente autônomos, um fim em si mesmo. A romantização de cientistas como heróis, ídolos ou descobridores dificulta a exposição do que está por trás de cada pequena pesquisa e acaba ocultando muitas referências e outras pessoas que deveriam ser mais notadas por suas contribuições.

Referências:

https://www.quora.com/Physicists/Why-isnt-Ibn-al-Haytham-Alhazen-that-famous-compared-to-Newton-Einstein-Aristotle-etc
FARA, Patricia – Uma breve história da Ciência – pag. 169, 170, 171

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