Invisibilização e Visibilização Social


A invisibilização social consiste neste ato um pouco abstrato de “invisibilizar” alguém. Mas não é que seja uma invisibilização física, algo sobrenatural ou fantástica. Se trata de deixar de enxergar alguém, nossa percepção sobre determinadas pessoas alterada por diversos motivos. A fotografia abaixo é do fotógrafo de rua chamado Sion Fullana, intitulada de “O homem por trás do vidro embaçado” / “The man behind the foggy glass” e ilustra bem a ideia.

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The man in the foggy glass – Sion Fullana

O tema da invisibilidade/invisibilização social é bem recente, e ganhou notório destaque após os trabalhos realizados pelo psicólogo Fernando Braga da Costa na Universidade de São Paulo (USP). Durante sua formação no curso de Psicologia, resolveu se fingir de gari e trabalhar com eles por 8 anos. Trabalho este, que lhe proporcionou uma intensa imersão na pele de um gari, culminando no seu livro “Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social”, fruto de sua dissertação de mestrado, e também, na belíssima palestra TEDxBeloHorizonte que pode ser conferida abaixo:
https://www.youtube.com/watch?v=m1bL5I_TW_I

A invisibilização social pode ser provocada e recebida por todos em alguma medida. Nós somos os protagonistas deste fenômeno, de tal forma que ao mesmo tempo em que podemos deixar de olhar, de reconhecer um gari, um morador de rua ou um cobrador de ônibus, podemos ser invisibilizados, ou seja, nos tornar invisíveis para outras pessoas, por sermos apenas estudantes e/ou por trabalharmos em alguma profissão não tão valorizada. Quem sofre uma ação invisibilizadora, qualquer que seja o motivo, também a exerce tal ação em outros momentos.

Deste modo, todos somos invisíveis sociais em alguma medida. Contudo, é necessário reconhecer que a população mais pobre e desfavorecida da sociedade sofre com isso de forma ainda mais esmagadora, sofre uma verdadeira humilhação social, como nos diz Fernando Braga da Costa. Pois, para estes, o fato de ser invisibilizado está atrelado a muitos outros problemas: econômicos, políticos, representativos – sendo taxados apenas como “vagabundos, malandros, mendigos, putas”, sendo vistas apenas por suas representações pejorativas ao invés de sua própria humanidade, da sua própria singularidade.

Quando pequenos, decidimos o que queremos ser “quando crescer”, e as respostas “bombeiro, policial, médico” são as mais frequentes. Estas são umas das profissões que são valorizadas coletivamente, que são reconhecidas pelos adultos e transferidas como as que “devem ser reconhecidas” para as crianças. A ideia acerca das profissões “dignas”, que devem ser cursadas, é aprendida pelas pessoas, e depois é naturalizada, não sendo questionada e se inserindo no pensamento e nas ações das pessoas como um hábito. Uma ideia assim, quando é quebrada, sempre gera um desconforto. A exemplo, o clima sempre fica um pouco estranho e os pais franzem os olhos quando uma criança foge ao padrão e resolve bater o pé e dizer que quer varrer as ruas, se tornar um gari. E os pais, às vezes com justificativas não muito profundas, condenam.

Assim como a concepção de profissões mais ou menos dignas, a ideia de não olhar para os moradores de rua ou qualquer outra pessoa que esteja em uma condição desfavorecida é naturalizada. Desse modo, uma das formas de invisibilizar alguém pode estar atrelada ao hábito de já fazermos isso sem perceber, culminando em uma indiferença não-intencional. Ainda, estudos em psicologia indicam que não conseguimos ter a mesma “atenção” para todos os estímulos ao nosso redor ao mesmo tempo. Quando focalizamos uma coisa específica, deixamos de perceber, ou pelo menos percebemos com menor intensidade, outros estímulos. Partindo disso, muitas das vezes podemos não ver alguém por estarmos focados em outras coisas específicas e nos nossos próprios pensamentos. Contudo, essa invisibilização não-intencional não pode justificar todo este problema, pois este tem raízes ainda mais profundas.

Uma outra forma de invisibilizar alguém ocorre por implicar uma representação, um conceito ou preconceito, e em consequência, deixa-se de ver a pessoa por trás desta “imagem”. Quando se chama alguém de “vagabundo”, é projetado um preconceito e a pessoa que o recebeu é ocultada em seu caráter humano. Essa projeção é uma simplificação desonesta de um indivíduo que carrega, no seu ser, uma enorme gama de particularidades e singularidades.  Quando alguém é classificado apenas por sua função ou cargo, tal como “o lixeiro”, “a tia da limpeza”, “o porteiro”, isso também ocorre.

Existe uma ideia construída de que realizar determinados trabalhos pode rebaixar ou exaltar alguém. Neste sentido, as tarefas “inferiores” realizadas por pessoas comuns, as tornam igualmente “inferiores”. E não há uma justificativa concreta e justa do porquê desta distinção, parece apenas ter se tornado mais uma ideia naturalizada e infrequentemente questionada.  A sociedade valoriza e desvaloriza funções e profissões, selecionando coletivamente as que devem ascender e as que devem ser rebaixadas. Essa separação entre cargos e tarefas inferiores e superiores, serve como um agravante para a invisibilidade social, já que os indivíduos considerados inferiores acabam tendendo a serem mais invisibilizados.

Uniformização - Garis

Outro ponto importante a se comentar, refere-se a questão dos uniformes. Todos nós temos a nossa singularidade. Nossos gostos pessoais, nossas roupas, acessórios, maneiras de agir e se expressar. Esses são símbolos que nos identificam, é essa pluralidade que forma a nossa identidade como seres humanos. Ainda, temos a tendência de nos diferenciarmos uns dos outros através destes mesmos símbolos, para que sejamos “vistos”. Entretanto, a exposição dessa singularidade, desse modo de ser, aos outros, é bloqueada ao se vestir um uniforme. Como o próprio nome diz, o uniforme uniformiza, não deixa que se sobressaia o “diferente”. O uniforme serve como um potencializador para a invisibilização social, pois ao andarem por aí, vestidos no mesmo uniforme como se fossem carros produzidos em série,  fica difícil distinguir quem é quem e fica mais fácil ignorar todos que vestem a mesma roupa.

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Uma das formas de proporcionar a visibilização dos indivíduos que normalmente são invisibilizados é permitir inicialmente o olhar. Sem olhar, não há reconhecimento, não há possibilidade de se estabelecer um possível diálogo e não há empatia, a possibilidade de se colocar no lugar do outro. O diálogo permite um distanciamento de nossos próprios preconceitos, e abre caminho para a modelagem de novas concepções pois fugimos ao padrão tão quanto a criança que gostaria de ser gari. A comunicação também possibilita que haja uma troca, pelo menos a nível de reconhecimento, e o reconhecimento da humanidade alheia já é por si só algo valioso.

Referências

https://www.academia.edu/s/dc14source=link76c6fe?

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